Viajando Solas, pero No Pasa Nada: Egito


 Viajando Solas, pero No Pasa Nada


 

FICHA TÉCNICA: 

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Nome : Rachel Pires

Idade: 19 anos

Profissão: Estudante de Relações Internacionais

País de Destino: Egito

Duração da viagem: 2 meses

Motivo da viagem: Eu viajei para o Egito durante um período de dois meses para realizar um trabalho voluntário pela AIESEC

 

 

PERGUNTINHAS :

 

1. O que te levou a decidir o destino?

 

No início, eu tinha plena consciência dos motivos que me levaram a escolher esse destino, já que os meus interesses por história antiga e a minha graduação em Relações Internacionais me aproximavam do legado faraônico do Egito e da atual conjuntura sociopolítica do Oriente Médio. Optar por esse roteiro significava realizar meus sonhos juvenis de ser arqueóloga, mas também me ajudaria a compreender um pouco mais sobre as minhas ambições profissionais futuras. Eu tinha plena consciência de que o maior impacto dessa viagem seria refletido em mim, em termos de autoconhecimento e de autocrítica, mas eu só pude imaginar o grau e a radicalidade das transformações quando eu de fato já estava no Egito, vivendo diariamente a minha metamorfose.

 

2. Você ficou com medo de ir sozinha? O que as pessoas ao seu redor falaram? 

A minha família e as pessoas ao redor, com raras exceções, reagiram de forma muito negativa à escolha do meu destino. A preocupação mais imediata foi a questão do terrorismo (sobretudo à época com as notícias de atentados que vitimaram turistas) e da suposta presença do Estado Islâmico dentro do território egípcio, mais especificamente no Sinai e no desertor6 ocidental. A ideia comum e disseminada era que o Egito, tal qual o Oriente Médio, era uma terra de árabes barbudos e suicidas, insuflados pelo fundamentalismo religioso. O Islã era observado por olhares de desconfiança, medo, desprezo e até ódio. Aliado a esse questionamento, também houve preocupação com o conservadorismo da sociedade egípcia e a maneira como as mulheres seriam tratadas. O imaginário coletivo orbitava em torno de discriminação, assédio, estupro e intolerância. O que uma menina de 19 anos, assumidamente homossexual, iria fazer em um lugar como "aquele"? (Essa era a indagação geral).

Provavelmente sofrer, apanhar, ser presa, ser deportada ou até mesmo morta. Impressões de pessoas que nunca estiveram no Egito  e que formaram suas respectivas opiniões a partir das notícias veiculadas pela grande mídia e do habitual "disse me disse". Eu viajaria para o Egito, que era mais ou menos parecido com o Irã das mulheres de chador negro, misturado com o Afeganistão do Talibã que executava publicamente multidões em estádios, somado ao radicalismo e intolerância  da Arábia Saudita com sua polícia religiosa. O Egito por si só, era ao mesmo tempo um caldeirão de distorções e um país sem identidade própria (calma, é lá que tem as pirâmides rs).

Eu não me rendi à caricatura de um Egito pós apocalíptico, uma terra de ninguém regida pela lei do mais "bárbaro".  Não me deixei ser conquistada pelo sentimento parcial e indevido de temer aquilo que não conhecia. Eu tinha medo de viajar sozinha por conta dos desafios cotidianos que eu teria que enfrentar durante dois meses, mas não pelo meu país de destino em si. Sem minha família e amigos, basicamente o meu suporte emocional, eu receava sucumbir aos obstáculos que se colocariam diante de mim: viver em um país no qual eu não falo a língua, convivendo com pessoas de diferentes nacionalidades em um apartamento no qual eu teria que cozinhar, lavar roupa, passar, fazer faxina e todas as outras tarefas domésticas (além do trabalho voluntário). Eu tinha medo de me descobrir uma burguesinha abastada, que não conseguia viver sem os caprichos de uma vida mimada.

 

4. quais eram as expectativas para a sua viagem e quais você achava que seriam os principais problemas que você iria encontrar por ir sozinha ? O que você acabou encontrando por lá? 
Em parte, essa expectativa se mostrou verdadeira. Ao pisar no Cairo, me dei conta dos meus privilégios e da relatividade dos meus problemas pessoais frente a uma sociedade com desigualdades abissais, pobreza disseminada, saneamento básico precário, saúde pública risível e com diversos outros gargalos estruturais crônicos. Lá eu genuinamente me dei conta da posição favorecida que eu ocupava, podendo estudar em uma universidade particular, ter roupas de grife, comida, plano de saúde, uma casa onde morar, uma família para me dar amor e carinho e muito mais. Pois é, eu tinha muito mais enquanto grande parte das pessoas tinha muito menos. O maior choque não foi o cultural, no sentido de me acanhar diante dos valores e das tradições locais, na interação com o ambiente externo (a minha adaptação foi imediata); mas o baque real aconteceu quando eu me vi fora da minha bolha existencial. Perceber o lugar ao qual eu pertencia dentro daquela sociedade e suas consequentes implicações me fizeram refletir muito. Eu podia adotar a postura da maioria dos turistas, ignorando todo o contexto socioeconômico que me rodeava e utilizando o meu tempo para satisfazer meus próprios caprichos; ou então eu poderia mobilizar os meus recursos (leia-se tempo, dinheiro e conhecimento) para tentar modificar, dentro do meu alcance, aquela realidade que tanto me perturbava e pela qual eu me sentia em parte responsável.

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Tickets da Rachel rumo à sua viagem pelo sul do Egito

 

 

O meu trabalho voluntário ganhou significado nesse contexto, mas transbordou o compromisso estabelecido com a AIESEC do Cairo. Eu me engajei em um projeto de direitos humanos e outro para ensinar inglês a crianças órfãs, mas também resolvi colocar em andamento iniciativas próprias. No meu tempo livre, além de fazer os passeios turísticos clássicos, andava pelos subúrbios e favelas do Cairo por minha própria conta, visitava mesquitas e igrejas coptas, percorria as instituições de ensino superior e procurava ao máximo interagir com os egípcios. Quis percorrer lugares não tão famosos e realizar um tour menos ortodoxo para justamente conhecer o Cairo a fundo, para além das pirâmides e todas as outras alegorias turísticas. E foram nessas andanças, inclusive pelo Sul do país e no Sinai, que eu descobri o objetivo da minha jornada. Decidi criar um blog de viagem para contar minhas impressões sobre o Egito, sobretudo na intenção de desconstruir os esteriótipos que permeavam a cabeça das pessoas. Nas minhas postagens eu tentei humanizar seres que não eram mais humanos aos olhos da sociedade brasileira, que não tinham mais direitos, que não eram dignos de solidariedade ou de compaixão. Diante de todo o amor, carinho, respeito e de toda hospitalidade e tolerância que eu recebi dos egípcios, me senti na obrigação de retribuir de alguma forma. Então fotografei muito, escrevi, ouvi depoimentos, conversei com os locais, aprendi sobre a sociedade e me empenhei em compartilhar todas essas experiências positivas que eu vivenciei.

Em termos mais práticos e menos políticos, o Egito se mostrou um país extremaIMG-20160318-WA0002mente diverso. De norte a sul me empanturrei com a culinária local, regada a muito pão sírio, carne de cordeiro e bovina, frango, falafel, shawarma, molokheya e temperos mil. Com pouco dinheiro se come bastante e muito bem. O café e os chás acompanham quase todas as refeições, juntodo tradicional e relaxante sheesha (narguilé no Brasil).

A variedade gastronômica é enorme, então não fiquei limitada apenas a comidas egípcias típicas: fui a restaurantes indianos e chineses tradicionais com meus amigos intercambistas (recomendo muito). Para os aficcionados por comida japonesa, o sushi também existe por lá hahaha, mas a um preço menos acessível.
Bebidas alcoólicas são terminantemente proibidas em espaços públicos, então ninguém bebe em barzinhos de rua e coisas do tipo. As bebidas são vendidas em lojas específicas e de difícil localização, tudo com a autorização estrita do governo. Mas para quem não quer beber em casa e procura algo no estilo da night brasileira, o Cairo dispõe de uma variedade considerável de boates. O preço das bebidas é altíssimo e na maioria delas, só se pode entrar em casal.
O transporte público é uma loucura caótica, mas funciona que é uma beleza e ainda por preços simbólicos. O metrô cobre grande parte da cidade, mas existem ônibus, micro ônibus e tuktuks (meu preferido) à disposição daqueles que buscam mais emoção.

 

5. Você se sentiu desconfortável por ser mulher e homossexual em um país que, pelo menos para nós, é visto como muito conservador?

 

Ser mulher e homossexual no Egito foi desafiador. No início, confesso que tive receio de me assumir e conversar abertamente sobre a questão LGBT no país, em termos de  aceitação, militância e auto organização. O medo não era exatamente infundado, já que a homossexualidade no país não é tolerada abertamente, remontando a casos de prisões. Mas parte desse medo estava também na minha cabeça e nas informações enviesadas que eu recebi ao longo de muitos anos. Eu e demais intercambistas, homens e mulheres, nos assumimos como gays, lésbicas e bissexuais frente ao nossos amigos egípcios e fomos muito bem acolhidos. Não sofremos discriminação, não ouvimos piadinhas, não perdemos a amizade de ninguém, não recebemos olhares de reprovação e não fomos alvo de qualquer tipo de violência. Pelo contrário, diante da homossexualidade velada no Egito, nosso ato foi tomado como uma ação de bravura e despertou muita curiosidade. Tivemos longas e detalhadas conversas sobre sexo, masturbação, aborto, prostituição e outros temas tidos como "tabu". Ouvi da grande maioria que a homossexualidade não era um problema diante do Islã, já que o mais importante era que as pessoas se amassem. O Islã, diziam eles, era uma religião de paz, solidariedade e amor. Alguns inclusive me questionaram porque eu demorei tanto a me abrir, já que isso não tinha nada de "anormal" ou "estranho".
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Rachel usando o hijab. " Hoje eu escolhi fazer uma imersão cultural profunda e tentar, a partir da minha posição de ocidental branca e não religiosa, compreender a vida cotidiana das mulheres muçulmanas aqui no Egito"
Infelizmente, essa questão ainda é muito pouco explorada e debatida na sociedade egípcia. De fato, não existe um movimento LGBT consolidado e público. As pessoas ficam "dentro do armário" e se conhecem basicamente através de aplicativos de encontros, que preservam a privacidade dos usuários. A vida social para esse grupo é bem restrita também, porque não existem boates e bares LGBT-friendly, como de costume no Brasil.
r4Mas para quem tem interesse em viajar para o Egito, não creio que deva se desanimar por conta dessa conjuntura, apesar de ser desconfortável. Penso que essa pode ser uma oportunidade de incentivar as forças embrionárias que combatem as parcelas mais conservadoras da sociedade. É um verdadeiro exercício de solidariedade e compaixão deixar sua zona de conforto para tentar ajudar uma causa da qual você compartilha.

6. Qual o conselho que você dá para meninas que querem viajar sozinhas? 

Um conselho para as meninas que pretendem viajar sozinhas pelo mundo é: não deixem os esteriótipos de gênero limitarem suas escolhas e os seus sonhos. Acredito que vocês precisam sim ter consciência dos constrangimentos que uma sociedade patriarcal globalizada impõe sobre nós, mas não podem permitir que elas moldem suas decisões e seu futuro. É preciso adotar uma posição combativa e afirmar a capacidade, a independência e a força das mulheres. Espero que a minha experiência inspire outras meninas a viajarem para lugares que "mulheres não devem ir" ou que não são "próprios" a elas. Como dizia um dos lemas da AIESEC AUC, "the only limit to your impact is your imagination".

 

 7.  Agora para ajudar as outras viajantes pelo mundo, o que você acha que não pode falta na mala de uma mulher? 

Apesar de muita gente acreditar que o hijab é a peça indispensável na mala das viajantes, acredito que para se ter uma experiência completa no Egito não pode faltar um belo traje de banho na bagagem, porque não dá para ir ao sul e não nadar na água cristalina e geladinha do rio Nilo!

 

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E ai, o que vocês acharam?

Depois de viver essa experiência incrível a Rachel criou um blog para contar suas impressões e quebrar os paradigmas sobre esse país, que na verdade é incrivelmente lindo e com uma cultura sem igual! Quem tiver interesse em saber mais sobre , nós super recomendamos a leitura!

Beijos,

Júlia

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